quinta-feira, 4 de março de 2010

24 horas

Acordo cedo, lavo meu rosto e me encaro no espelho. Pensei, é hoje. Escovo meus dentes andando pelo apartamento ainda fechado. Enxaguo a boca, seco com a toalha velha.

Vou até a sala, abro a janela - céu azul - e inspiro, inspiro, inspiro. Tá faltando alguma coisa! Volto pro quarto, separo minha roupa, escolho a melhor gravata, calço meus sapatos, ajeito minha camisa. Denovo o espelho e penso: tem que ser hoje? Ajeito meu cabelo e pego minha pasta.

Saio na calçada caminho e penso, falta alguma coisa! Faço o caminho de sempre, à pé e continua faltando alguma coisa. Sigo em direção ao escritório, atravesso ruas, avenidas, parques, pessoas, velhinhas e crianças. Puxa, tá faltando alguma coisa.

A manhã voa no relógio, hora do almoço. Minha barriga cheia grita aos pulmões: FALTA ALGUMA COISA! Tomo meu expresso, masco meu chiclete e volto ao escritório. Tarde passa rápida. Hora de ir. Trajeto de retorno para casa, visto minha roupa de corrida, corro desenfreadamente por uma hora.

Volto pra casa, roupa de natação e me molho por mais uma hora. Falta alguma coisa. Cinema! Assim passa rápido e me distraio. Uma da manhã, chego em casa cansado e pronto passou o dia, faltando alguma coisa.

A coisa não está na pasta, não está no quarto, não está no trabalho, apenas nos botecos do caminho. Imagino a recaída como uma rocha no meio de um precipício. Ops, desviei! Assim passou as 24 horas, com rochas, muitas rochas e um precipício de uma vida que só percorri por 24 horas. Elas não passam, posso me distrair, posso pensar em outras coisas e não passam. Me amarro, me escarro todo e na vigésima quinta hora continua faltando alguma coisa. Quero meu cigarro! Mas cuidado ele faz parte do meu passado.

quarta-feira, 3 de março de 2010

(com) vida

Se me perguntarem onde fica a minha terra, direi ali. Se me perguntarem onde encontro ele, direi ali. Se me perguntarem onde encontro o meu amor, direi ali. Um amor estranho, diferente, tênue como um arrepio no dia de frio.

Ali no verso, ali no canto, ali em cima, ali do lado, ali, só ali o meu amor eu encontro. Nessa terra, nesse solo, naquela árvore, o continente que pulsa é o meu coração.

Minha terra é marcada por dias de pranto e de glórias, de rimas e cantos, onde vi aquele colibri que se aproximou, onde expeli um bem-te-vi que eu deixei sair, logo ali, um javali que deixei invandir, na terra do gibi da minha vida, em um sambaqui que me me enterraram. Um homem travesti de si, do seu modo, travesti do mundo, do corpo e do sangue. Te tresli por inteiro e te desconbri um travesti da inquietação magoada e angustiada.

Essa terra é minha, uma terra logo ali, (com) vida. Respiro! Ali na minha terra. Mas depois de deixar chegar o colibri, me livrar do bem-te-vi e da invasão do javali, chegou o meu guri. Um puro frenesi que logo eu engoli e não quero mais cuspir, meu bogari.

terça-feira, 2 de março de 2010

Cinza

Hoje chegou o dia. O momento de entregar os vidros do cinzeiro, o fogo do isqueiro, o papel do maço de cigarros, entregar a tal nicotina para os outros. O sentimento é de petrificação, de pulmão inflado de ar e vazio de coragem. Vazio até certo ponto, se fosse tão vazio a primeira frase não faria sentido. Hoje começa o oposto da realidade que sempre vivi, o (in)verso do (in)verso que conheço, a resposta da minha pergunta, a rima do meu poema de vida.
Então, o dia chegou... Quero me entorpecer dele, viver dele, não quero deixa-lo ir, mas me dispeço e peço: vá! Quero migalhas, quero esse corpo queimado, quero esse cheiro de cinza, que pinta, que firma, que que vibra, que me pinça. Seu leito fede, minha casa fede, meu corpo fede e minha vida? Também fede? Tudo acaba amanhã, com a brisa da manhã, com a cinza do cinceiro, com a brisa da cinza, com a brisa da casa, com o cinza do dia.

Perdido

Aqui estou. Ainda vivo, mas não me percebo apenas me sinto. Dúvida! Estou inundado num precipício de incertezas. Será o rumo certo o que escolhi? Isso eu quero descobrir na pele, no dia a dia, na nova etapa. Mas e se ele não voltar? Me resgatar? Quero tê-lo, incorporá-lo, apenas arrancar-lhe a alma e possuí-lo. Não tenho esse direito, mas te quero, até onde eu possa suportar. Procuro forças e desejos, busco palavras e sentidos, pesquiso tua epiderme, coloco o dedo na tua ferida, te provoco, te faço remoer o teu passado, te permito, te cutuco e te sufoco. Tropeçar nas tuas penas, quando saio da cama não me convém, apenas me detém. Me enrosca nos teus pelos, me afaga nos teus seios, me cuida no teu ventre, me prende e maltrata nos teus braços e no teu sexo... desaparece, esvazia, uma caixinha vazia, uma vida vadia, uma presenaça de ida. É apenas um lapso da solidão!

segunda-feira, 1 de março de 2010

Saudades

Saudade que aperta
Que faz falta
Que espera aquele grito incontrolável de dizer olá
Como podes perder o sentido do tempo e te desfazer em apenas um corpo
Sem alma, sem um coração vibrante que pulsa, pulsa de amor e ódio ao mesmo tempo

Tu nunca existiu, apenas conviveu comigo, na minha cama, na minha vida
Perdeu o senso do amor, do carinho que tínhamos por ti
Buscou nas teclas do teu piano a poesia da tua morte, do teu fim
Nos deixou aqui, dizendo adeus, escutando a sonata de Beethoven que marca a tua ida
Desmarca a tua chegada e me refaz em poças de lágrimas de dor, de solidão

Tu encontrou a resposta das tuas perguntas? Tu te encontrou como o Frodo do filme? Tu cresceu sempre assim Gabriela, desceu do telhado e quebrou tua vida como se quebra o sexo do dia seguinte?

Não ouso responder tuas perguntas que sempre discordas de mim, que argumentas como se fosse o fim das tuas palavras. Acende um cigarro, toma um gole da tua cerveja, me beija na boca com os lábios úmidos de prazer, amor ao teu jeito e ao teu gosto

Não encontras mais o teu piano no canto da sala porque ele não é mais teu, é de todos, agora é deles, daqueles que faleceram junto à ti. Daqueles gritaram e pediram a tu volta num dia quente de dezembro. Me espera, me espera, me espera, me prende, me submete, me contesta, inalo tua fumaça, desfaço tua cama e te deixo

Ali, logo, ali, amordaçado, na tua janela, pendurado na tua janela sem mais respirar, preso por cordas de uma cortina, morto de amor pelo que não tinhas, morto por causar a dor e a morte dos outros, morto por amar inconseqüente os outros, morto por existir na minha vida, como só existe um amor que realmente viveu comigo.

Fique bem, me disseco de ti e da tua pele, me livro de ti e do teu rosnado, mas ainda te amo, apenas te amor morto por um amor incontestável de viver

Alegria e serpentina

Todo o dia chego em casa
Encontro eles com regularidade, crio fantasias e leio meu texto em provençal
Troco de roupa, tomo meu banho e faço minha comida
Eles fazem da minha vida um mundo de alegrias e carnaval

Coralie Clément toca no meu player digital, que bela
Me escondo atrás de rabiscos e livros para conter minha ansiedade ansestral
Fotos de rostos e moços, de caras e bocas, sorrisos e arrepios pintam minha tela
São eles que aparecem na imagem do meu cibernético vitral

Ao ver tais imagens, tais fotos batidas, aqueles pequenos retratos
Me vejo no meio de tanta gente cheia de vida, cheia de vontades
Quase não percebo quando estou com eles, por ali,por aqui, nos teatros
Não cabe dentro de mim a emoção de estar ao lado deles

Dizem que fazer parte dela é uma alegria
De vez em quando até distância quero deles, uma tentação
Formaram meu caráter desde criança com serpentina e fantasia
E me protegem das escolhas erradas, tentadoras e de frutração

Participam ativamente da minha vida, das minhas dúvidas e dos meus anseios
Por vezes, de tanto me ajudar, são chatos
Me abraçam e me acolhem nas gargalhadas e nas risadas
Mas por mero caso do descaso, eles acabam sendo sensatos

Pergunte-se quem são:
A mão que segura, o braço que fortifica, o acorde que afaga, a palavra que eu escuto
A mãe que ama, o irmão que acolhe, a cunhada que toca, o pai sábio
São eles senhores, a razão do entender o lado humano de uma vida

Como um carnaval que não tem fim
É a alegria, é a serpentina, é a maestria
Uma jornada de vida que sempre diz sim
Essa é minha família

Ele me olhou por 24 anos

Ele me olhou por 24 anos
Causando-me arrepio e medo
parecia em si mesmo, desumano
Quando naquela noite de junho me disse que veio

Não entendi ao certo sua vinda
Eu não o senti chegando
Eu não entendi em nada, simplesmente em nada
Só vi que ele veio, só vi ele se aproximando

Ouso acreditar que sua vinda foi para me esfregar os olhos
Me mostrar que a vida vivida não era a minha vida vivida
Era vida deles vivida, a vida dos outros vivida

Sobreviver nesse círculo, sobreviver na roda que roda
No som de uma melodia que não termina
Nos traços de um desenho que não desbota
Nas drogas de qualquer anfetamina

Me mostrou que esse moço (quiçá, até uma moça) não veio para abalar
Nem tampouco para me embriagar ou me fazer esquecer
Desabotoou minha camisa e me disse, cheguei pra te amar
Isso não! Só quero alguém que me mostre o lado humano do meu ser, apenas isso

Ele começou a escrever sua história em mim com um lápis
As suas formas foram regrando e cercando o meu viver
Ele se apresentou como AIDS
Mas nunca me deixou desaprender que viver é só sobreviver

Começou a ser um vivente do meu sangue
Um vivente da minha carne, da minha alma e dos meus medos
Um vivente embriagado, infiltrado, palpitante e inerente
Um vivente que sorri quando eu acordo e que morre quando eu esqueço
Não sou eu que sobrevivo a ele
Ele sobrevive por mim
Sorte dele ter me encontrado
Sorte minha te-lo entendido
Sorte minha te-lo aceitado
Sorte minha te-lo amordaçado dentro de mim
Sorte!

Uma tarde

Uma tarde com amigos
Uma gota de sangue sobre meu dia
Tudo isso junto como rios
E mais ainda, como uma sangria

Mas ao passo que o tempo toma conta de tudo
Eu sigo andando ao som de Bethoven no meu mundo
Parece que tudo gira, tudo inspira
Na verdade tudo me detém e me engole como uma sina

Se o vento corre pelo meu sêmen
Eu corro no meu apartamento em busca do meu homem
Em busca do tempo certo, da vida certa
No encontro do incerto, sem arestas
 
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