segunda-feira, 1 de março de 2010

Ele me olhou por 24 anos

Ele me olhou por 24 anos
Causando-me arrepio e medo
parecia em si mesmo, desumano
Quando naquela noite de junho me disse que veio

Não entendi ao certo sua vinda
Eu não o senti chegando
Eu não entendi em nada, simplesmente em nada
Só vi que ele veio, só vi ele se aproximando

Ouso acreditar que sua vinda foi para me esfregar os olhos
Me mostrar que a vida vivida não era a minha vida vivida
Era vida deles vivida, a vida dos outros vivida

Sobreviver nesse círculo, sobreviver na roda que roda
No som de uma melodia que não termina
Nos traços de um desenho que não desbota
Nas drogas de qualquer anfetamina

Me mostrou que esse moço (quiçá, até uma moça) não veio para abalar
Nem tampouco para me embriagar ou me fazer esquecer
Desabotoou minha camisa e me disse, cheguei pra te amar
Isso não! Só quero alguém que me mostre o lado humano do meu ser, apenas isso

Ele começou a escrever sua história em mim com um lápis
As suas formas foram regrando e cercando o meu viver
Ele se apresentou como AIDS
Mas nunca me deixou desaprender que viver é só sobreviver

Começou a ser um vivente do meu sangue
Um vivente da minha carne, da minha alma e dos meus medos
Um vivente embriagado, infiltrado, palpitante e inerente
Um vivente que sorri quando eu acordo e que morre quando eu esqueço
Não sou eu que sobrevivo a ele
Ele sobrevive por mim
Sorte dele ter me encontrado
Sorte minha te-lo entendido
Sorte minha te-lo aceitado
Sorte minha te-lo amordaçado dentro de mim
Sorte!

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